As palavras não são minhas
Não são
As palavras são delas mesmas
Embora constrangidas
Por passarem por tantas mãos
As palavras secam
Quando não as pronuncio
As palavras reclamam
Quando não as acarinho
As palavras...
Sempre elas
A me acordarem
À noite para uma longa espera
Sim
As palavras têm insônia
Perambulam nas esquinas
Andam sozinhas nas ruas
Ou acompanhadas pensam
No final
No ponto final.
Magna Santos
Domingo, 12 de Julho de 2009
Quarta-feira, 8 de Julho de 2009
RESQUÍCIOS DE VIAGEM E OUTRAS BOBAGENS
Há viagens que rendem. Esta rendeu. Salvo-conduto para andar em paz pelo resto do ano. Portanto, impagável.
No alto dos meus 39 anos, me vejo às vezes bem menina, embora noutras velha me pareço. Devo sofrer de um distúrbio ainda a ser catalogado. Se tiver sorte, entrarei pra história, quando conseguir decifrar meu próprio caso. Não, melhor passar a bola pra minha analista, talvez a oportunidade seja dela.
Nunca tive nenhum problema em relação ao passar do tempo, nenhum rasgo de vaidade ou sei lá o quê para esconder idade. O tempo passa e, para mim, isto sempre foi muito natural. Assim, vivi, estudei, por força do próprio trabalho, pesquisei, anos atrás, construindo hipótese confirmada, no final, sobre as temidas palavras que passeiam pelo caminho do envelhecimento. Associei à ideologia e Althusser me ajudou deveras nos meus pensamentos, além de Luria, o chato do Lacan e tantos camaradas que nos instigam a pensar melhor. Portanto, teoria não me faltava.
Porém, o que são teorias comparadas às vivências em família? Lá vai uma cena besta, banal, mas que me rendeu boas considerações: não sei mais o que estávamos a conversar, nem o que se passava na minha cabecinha chata para sair com esta pérola no meio dos meus iguais:
_ Eu achava que demorava tanto chegar os 40. Antigamente, pensava mesmo que uma pessoa de 40 anos tinha tanta idade! Hoje em dia os mais jovens não pensam assim.
Os olhos admirados da minha cunhada me interrogaram aos risos:
_ Como é? Antigamente? Não, minha filha, antigamente não, ainda hoje.
_ Como é? Antigamente? Não, minha filha, antigamente não, ainda hoje.
Surpreendentemente, a minha impressão era só minha. Ninguém concordou comigo. Mas será o Benedito? Meu sorriso amarelo não era pário pra risadagem que se formou, muito menos para inúmeros exemplos surgidos aos montes e de várias bocas ao mesmo tempo. Deus do céu, quase se formou um debate, tendo a mim como alvo, logicamente. Como não ía perder a diversão, teimei, reforcei o que nem eu mais acreditava só para ver a coisa pegar fogo. Eu gosto mesmo é do barulho.
A celeuma perdurou, mas amansou até no dia seguinte reacender em um ambiente onde os adolescentes dividiam o espaço conosco. Eles lá jogando o velho jogo de baralho chamado "burro" e nós cá, conversando miolo de pote. Um certo "nós cá" bem que tentou infiltrar-se no jogo, mas foi avisada pela outra: "te manda que tu és tia". Esta informação não podia dar noutra coisa, senão em mais risadas e teimas. Mas, por força das circunstâncias, renunciei a qualquer intuito de jogo. Enquanto conversava, retorcia a cabeça à mesma linha do ombro e observava com vigor a atividade "joguística".
_ Magna, tô avisando: tu tás doida para ficar com torcicolo. Olha pra cá, "tia".
E agora vocês podem perguntar onde isso tudo, afinal, foi parar. Em lugar algum, amigos. Bem, continuo com minhas teimas (pois gosto da graça), alguma teoria sem maior relevância (embora com mais uma palavra para computar: 'tia'. O torcicolo? Ah, já estou bem, obrigada, mas da pomada cataflam não restou quase nada.
Magna Santos
Segunda-feira, 6 de Julho de 2009
VOLTANDO
Vocês vêem coisas. Aqui não sou eu a escrever. Desconfio que não cheguei ainda. Ainda estou lá...onde não sei. Talvez me demore na porteira admirando o ipê que não floresceu. Quem sabe abraçada ao jasmim, plantado por mãos avós que não conheci. Devo estar numa rede contemplando o Araripe, buscando classificar suas cores tão singulares, tentando também imaginar as vidas naqueles pontinhos brancos que dizem serem casas distantes. Lá, por certo, não se precisa de geladeira nem de luz elétrica nem de gás. De que se precisa lá, meu Deus?
Lá, onde não sei, devo estar acompanhando uma criança alimentando pintos. Saudade também se sente das galinhas, mesmo que depois as coma e repita mais e mais e mais, como se iguaria e criatura fossem diferentes, como se aquela do prato fosse algo fabricado, bem distante da amiga do quintal.
Os sons ainda estão nos meus ouvidos. Acostumei-me aos plurais engolidos cheios de risadas e tudo mais. Reconhecer uma voz antiga, rir com outra aprendendo a falar. Rir também de tantas outras coisas...de perder o fôlego! Rir de si mesma, dos outros, da vida, das diferenças das gerações que nos acordam para o passar do tempo.
Ah, sensações!
Devo estar ainda cantando um "parabéns pra você" numa farra assim, digamos, bem "thriller", pois é necessário atualizar os acontecimentos.
Sim, é necessário atualizar-se. É essencial estar em dia com o coração para deixá-lo chorar de emoção ao ser convidada para madrinha de mais um amado pequeno com nome de avô. Quanta honra num convite, quanto isto representa!
É preciso estar aberta a conhecer gente nova, receber um presente cheio de poesia, trocar abraços e sorrir, mesmo sem jeito, com o convite para o compartilhamento de palavras. Outra honra.
Demoro-me demais nos cantos. Mas, creio, já peguei o ônibus, já tentei dormir no seu embalo, já me assustei com a chuva e o horário de retornar ao trabalho, quando aqui entrei nesta cidade de surpresas.
Cheguei, portanto, para outras viagens.
Lá, onde não sei, devo estar acompanhando uma criança alimentando pintos. Saudade também se sente das galinhas, mesmo que depois as coma e repita mais e mais e mais, como se iguaria e criatura fossem diferentes, como se aquela do prato fosse algo fabricado, bem distante da amiga do quintal.
Os sons ainda estão nos meus ouvidos. Acostumei-me aos plurais engolidos cheios de risadas e tudo mais. Reconhecer uma voz antiga, rir com outra aprendendo a falar. Rir também de tantas outras coisas...de perder o fôlego! Rir de si mesma, dos outros, da vida, das diferenças das gerações que nos acordam para o passar do tempo.
Ah, sensações!
Devo estar ainda cantando um "parabéns pra você" numa farra assim, digamos, bem "thriller", pois é necessário atualizar os acontecimentos.
Sim, é necessário atualizar-se. É essencial estar em dia com o coração para deixá-lo chorar de emoção ao ser convidada para madrinha de mais um amado pequeno com nome de avô. Quanta honra num convite, quanto isto representa!
É preciso estar aberta a conhecer gente nova, receber um presente cheio de poesia, trocar abraços e sorrir, mesmo sem jeito, com o convite para o compartilhamento de palavras. Outra honra.
Demoro-me demais nos cantos. Mas, creio, já peguei o ônibus, já tentei dormir no seu embalo, já me assustei com a chuva e o horário de retornar ao trabalho, quando aqui entrei nesta cidade de surpresas.
Cheguei, portanto, para outras viagens.
Magna Santos
Domingo, 28 de Junho de 2009
ATÉ BREVE
Pronto. A mala está arrumada. Daqui a 4 horas pegarei a estrada. Em plena noite de São Pedro, só me resta esperar algumas fogueiras pelo caminho. Certamente, contemplarei bandeirinhas, balões enfeitando ruas, meninos com traques de massa, arrasta-pé e rojão. A lua, salvo engano, estará crescente. Colocarei os problemas para dormir e estenderei meu olhos pela janela, esperando ver todas as maravilhas que meus olhos alcançarem.
Infelizmente, o mp3 - que nunca uso - vai continuar inativo, pois acabo de descobrir que a pilha se foi. Não há mais tempo nem disposição para providenciar nada, a não ser estas poucas linhas para informar a minha ausência do Sementeiras por uns dias.
A trilha sonora, portanto, ficará por conta dos sons do caminho. Porém o barulho do ônibus e a paisagem na janela me farão recordar um tempo em que essa viagem era muito mais frequente. Quanta coisa mudou desde aquela época! Para melhor, é bom ressaltar. Hoje me conformo em ir apenas uma vez por ano ao meu pequeno pé de serra.
E vou em paz.
Magna Santos
Quarta-feira, 17 de Junho de 2009
QUERERES
Depois de uma 'viagem' e de uma 'falta' inesgotável, hoje queria mesmo escrever algo simples, falando da vida, da alegria, do correr dos dias, do traçar do destino, como bem fizeram os adoráveis Samarone Lima e Luna Freire. Ah, eu queria falar com simplicidade da simplicidade. Queria contar das cores que vi hoje assim que acordei, do atraso que me permiti chegar ao trabalho, do bom dia que não hesitei em desejar, apesar do silêncio respondido.
Queria dizer que meu coração ficou apertado o dia inteiro por pensar os problemas alheios, quando os meus nem sempre sei resolvê-los. Não, não queria falar de problemas. Quem sou eu para trazer problemas para alguns olhos generosos que visitam estas terras atrás de sementes felizes.
Queria mesmo era falar de alegria. Da visita inusitada que também me permiti fazer a uma amiga no meio da manhã, para falar da vida, das perguntas da vida e da total falta de respostas. Queria dizer que almocei um feijão verde delicioso, temperado com muito papo, com risadas e histórias das mais diversas. Queria contar que existem adolescentes pensando sobre a vida, renunciando à festa de 15 anos para levar mantimentos a esfomeados de esperança. Ah, eu queria repetir esta história uma porção de vezes, porque é maravilhoso poder lembrá-la.
Queria também contar que existem crianças que encaram com naturalidade a morte, não porque seja seu cotidiano, mas porque é - a morte - mesmo natural, apesar da saudade que deixa em quem fica. Quem sabe as crianças se despeçam melhor do que os adultos, porque acabaram de chegar a este planeta de pontos finais, trazendo na bagagem tantas exclamações quantas cabem nos bolsos. Queria informar que, de vez em quando, mergulho profundamente nas interrogações e reticências, saindo com muitas exclamações enganchadas nos bolsos e cabelos. Lá no fundo tem mesmo uma porção delas. Pode acreditar!
Queria confessar como fico feliz quando me ligam para contar que estão com saudades e que lamento o relógio ser ingrato aos encontros, porém continuo querendo aquele sorvete, mesmo se o tempo estiver frio.
Queria dizer que meu coração ficou apertado o dia inteiro por pensar os problemas alheios, quando os meus nem sempre sei resolvê-los. Não, não queria falar de problemas. Quem sou eu para trazer problemas para alguns olhos generosos que visitam estas terras atrás de sementes felizes.
Queria mesmo era falar de alegria. Da visita inusitada que também me permiti fazer a uma amiga no meio da manhã, para falar da vida, das perguntas da vida e da total falta de respostas. Queria dizer que almocei um feijão verde delicioso, temperado com muito papo, com risadas e histórias das mais diversas. Queria contar que existem adolescentes pensando sobre a vida, renunciando à festa de 15 anos para levar mantimentos a esfomeados de esperança. Ah, eu queria repetir esta história uma porção de vezes, porque é maravilhoso poder lembrá-la.
Queria também contar que existem crianças que encaram com naturalidade a morte, não porque seja seu cotidiano, mas porque é - a morte - mesmo natural, apesar da saudade que deixa em quem fica. Quem sabe as crianças se despeçam melhor do que os adultos, porque acabaram de chegar a este planeta de pontos finais, trazendo na bagagem tantas exclamações quantas cabem nos bolsos. Queria informar que, de vez em quando, mergulho profundamente nas interrogações e reticências, saindo com muitas exclamações enganchadas nos bolsos e cabelos. Lá no fundo tem mesmo uma porção delas. Pode acreditar!
Queria confessar como fico feliz quando me ligam para contar que estão com saudades e que lamento o relógio ser ingrato aos encontros, porém continuo querendo aquele sorvete, mesmo se o tempo estiver frio.
Queria pedir desculpas pelas palavras que não sei escolher direito, quando tento me definir, pois ainda não tenho definição.
Gostaria (só para mudar um pouco o verbo) de me estender nas histórias de como foi meu dia, contudo o sono me convida a sonhar mais para que eu viva muito mais, quando acordar.
Magna Santos
Segunda-feira, 8 de Junho de 2009
VIAGEM*
Protege a cabeça do vento
E roda no assento
Para ver mais:
Passa carro
Mato
Avião
Redemoinho
Carrapicho
Caramanchão
Passa sossego
Atropelo
Estrangeiro
Conterrâneo
Vira e volta
Pé ligeiro
Passa mãe
Pai
Desconhecidos
Assobio
Homem vendendo mel...
Nenhum tostão pra comprar
Passa
Passa tanto
E tanto o percorrido...
Embora o peito espremido
Só não passa
A vontade
De chegar.
Magna Santos
*Mais uma vez, Pachelly Jamacaru gentilmente autorizou a publicação desta foto, de cuja beleza veio a inspiração para esta 'viagem'. Fica a sugestão para conferir o blog deste artista, captador dos momentos simples e, por isso mesmo, mais belos.
Obrigada, Pachelly.
Domingo, 31 de Maio de 2009
FALTA
Seu peito seca
O leite acabou
O dia também se fez noite
E ele não chora mais
Um choro, por favor
Para suas noites
Uma febre
Uma dor
Um calafrio
Seus pés não vão ao quarto vizinho
Não há barulhos infantis por entre as paredes
Só o silêncio
Acorda as manhãs
Não fosse os bem-te-vis
Nada faria sentido
Sim
O bem criou mesmo asas
E voou
Magna Santos
O leite acabou
O dia também se fez noite
E ele não chora mais
Um choro, por favor
Para suas noites
Uma febre
Uma dor
Um calafrio
Seus pés não vão ao quarto vizinho
Não há barulhos infantis por entre as paredes
Só o silêncio
Acorda as manhãs
Não fosse os bem-te-vis
Nada faria sentido
Sim
O bem criou mesmo asas
E voou
Magna Santos
Domingo, 24 de Maio de 2009
ENCONTRO
O diálogo com outros terrenos nos deixam mais férteis, mais serenos e, por vezes, mais plenos. Assim, deixo o que escrevi a partir de duas fotografias de Pachelly Jamacaru, já publicado em seu blog no último dia 11. Pachelly é um artista que capta a beleza e tem o dom de fotografá-la, escrevê-la e também musicá-la. Sou, particularmente, tocada por suas imagens. Estas duas, em especial, me chegaram como um carinho no coração, trasbordando em lágrimas, emoção e muitas lembranças. Nem toda poesia está escrita, a grande maioria está para ser vista, sentida e vivida. Com a permissão do conterrâneo Pachelly, publico as fotografias, porém existem muito mais no seu blog(acesso do lado direito). Vamos às imagens e algumas palavras minhas:


A MENINA E O ESPELHO DA SERRA
Lá no alto da serra vive uma menina feliz
Uma menina
E sua boneca
E seu pai
E sua mãe
À noite dormem abraçados
Pela manhã acordam assombrados
De tanta cor e luz.
Há muitas frestas nas telhas
Quebradas com o tempo
Há tantas outras nas paredes
Que a tinta branca esconde
Outro dia a menina perguntou:
_ Mãe, o que é espêi?
_ O que, menina?
_ Espêi, mãe, o que é?
A mãe sorriu e a pegou pela mão
Foram pela estrada estreita
Onde a menina distraída chutava pedrinhas
E brincava com as borboletas
Ao chegar do outro lado do "lagoin"
(como a menina chamava)
A mãe pediu:
_Olha, fia
E a filha olhou e viu
...
E nunca mais esqueceu.
Muito obrigada, Pachelly Jamacaru.
Segunda-feira, 18 de Maio de 2009
DONA INSPIRAÇÃO
Há dias que a espero, mas ela finge não me ver. Aliás, é sempre assim: quanto mais a queremos, mais a perdemos. Melhor é deixá-la ir, por si só terá vontade de voltar um dia.
Sempre temperamental, chega quando quer, não adianta espernear. Alguns dizem que já a possuem naturalmente. Não consigo entender e me controlo para não julgá-los mentirosos. Talvez não sejam, talvez não. Talvez o problema seja meu que ainda não ganhei sua simpatia incondicional. Sim, terá que ser incondicional, pois o que farei nos dias que a preguiça não deixar pensar? No dia em que as palavras gargalharem em vez de sorrirem, gritarem ao invés de sussurrarem?
Ah, bendita inspiração que acontece quando menos esperamos, que nos surpreende sem nenhuma caneta, cotoco de lápis, muito menos papel e com uma memória incapaz de reter o já sabido, quanto mais o inusitado...
Santa inspiração que gosta das noites, quando o silêncio vem nos visitar. Gosta daquela solidão instantânea, passageira, quando os momentos parecem se alongar ou refletir a beleza das ruas, das praças, das gentes.
O relógio se arrasta e a fuga é inevitável. Impossível não viajar nos pensamentos, nos sonhos, nas ilusões. A falta dela nos deixam volúveis, enche um barril inteiro de ausências, ao ponto de estar aqui sem saber como terminar esta conversa, mantida por força dos dedos. Perdoem-me a escassez de assunto e essas palavras tão evasivas. Quando ela voltar mais complacente, há de deixar os seus rastros neste terreno de sementes. Por ora aceito humildemente a sua falta e peço: paciência.
Magna Santos
Quarta-feira, 6 de Maio de 2009
A FUGA
O menino queria fugir. Preparou a bolsa com seus pertences favoritos, ou diria, seu tesouro: um pião, 10 bolas de gude, 5 chicletes, o último gibi. A mãe assistia a tudo em meio a cálculos de contas a vencer em poucos dias. No entanto, observando a movimentação do pequeno, deixou de lado calculadora, papéis e preocupações financeiras; eles podiam esperar.
_ Queres ir aonde, Serginho?
_ Para longe.
_ Onde? insistiu
_ Naquele lugar que é depois daquela curva.
_ Pois bem, meu filho, mas você está esquecendo duas coisas.
_ O que, mãe?
_ Primeiro nossa foto. Não se pode ir embora sem fotos. Depois, precisa lanchar para seguir viagem.
O menino concordou sem demora. Escalou a primeira prateleira da estante e retirou a foto: ele, o pai, a mãe e dindin, seu cachorro. Depois olhou-a demoradamente, guardou na mochila e sentou-se à mesa, esperando algo para comer.
A mãe fez um ritual inusitado na cozinha: ligou o som em uma música bem divertida, buscou apetrechos e começou a rebolar manipulando os ingredientes. O menino também assistia a tudo, tentando apenas observar, mas aos poucos começou a batucar com os dedos. Dindin parecia entender tudo, com seu rabo ministrando euforia. A mãe, ao som da batucada, ía cada vez mais misturando: sabor e ritmo, enquanto o filho mesclava som, sorriso, fome e alegria em porções generosas.
Fartaram-se ao pôr do sol até que Serginho pareceu lembrar-se de algo. Guardou as bolas de gude e o pião. Nada mais de chicletes, ele e a mãe mascaram todos. De mãos dadas com ela, seguiu para o quarto a fim de escutar o gibi antes de dormir.
A fuga? Ah, ela poderia esperar para depois...e de novo.
Magna Santos
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